Por Henrique Martins
Todo mundo tem preocupações que parecem insolúveis. Problemas corriqueiros que nos aborrecem profundamente, tais como: contas a pagar, casa para zelar, filhos para cuidar, trabalhos a executar, faculdade para estudar, intrigas a evitar, discussões a vencer, blogs a escrever, etc. Mas muitos de nós desconhecemos a verdadeira importância desses problemas perante um quadro amplo e universal. Outros, como eu, procuram ignorar qualquer tipo de quadro geral que tire toda a importância real dos problemas humanos. Por isso, proponho uma viagem mental para muito, muito longe daqui. Se estiver disposto basta me acompanhar nos parágrafos abaixo.
Imagine o tamanho do seu quarto, da sua casa, da sua rua. Agora pense no tamanho do seu bairro, da sua cidade, do seu estado. Até aqui a maioria das pessoas consegue visualizar com facilidade, mas agora pense na imensidão do Brasil! A partir daqui as coisas se complicam, pois começamos a pensar em termos continentais – só as Américas ocupam uma face inteira do planeta – e a Eufrásia (Europa+África+Ásia) possui a maior extensão de terra do planeta.
O planeta... A partir daqui os números começam a fazer pouco sentido para nós, mas conhecer alguns números nos faz entender o tamanho do drama: O diâmetro da Terra é de 39.830 km e seu movimento de rotação (em torno de si mesmo) é de 1.674 km/h (para se ter uma ideia da rapidez disso basta comparar com a velocidade do som que é de cerca de 1.200 km/h).
Conforme avançamos, as distâncias começam a ficar muito fora de nossa realidade. Se você acha longe a distância de quase 2.400 km de Brasília a Fortaleza, o que acha de percorrer 400.000 km para chegar à Lua? Ou os 150 MILHÕES de quilômetros até o nosso Sol? Mas é sacanagem pular para o tamanho do Sol antes de falar dos irmãos maiores da Terra – os gigantes gasosos do Sistema Solar.
Júpiter, Saturno, Netuno e Urano são enormes em comparação ao nosso planeta. Se Júpiter – o maior planeta do Sistema Solar – fosse do tamanho de uma bola de futebol, a Terra seria do tamanho de uma bolinha de gude. Mas as coisas ficam realmente tensas quando pensamos na pequenez do nosso planetinha em comparação ao imenso Sol. Se nossa estrela-mãe fosse do tamanho de uma bola de basquete, a Terra seria tão pequena quanto uma ervilha.
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| Família boa se mantém reunida! |
Ufa! Se parássemos por aí já seria muito mais do que podemos conceber em nossas mentes encaixotadas, mas para a alegria (ou desespero) de muitos a escala parece continuar infinitamente. Para tentar entender a partir daqui precisamos entrar no reino absurdo da medida astronômica mais famosa – o ano-luz. A velocidade da luz é de 300.000 quilômetros por SEGUNDO. Ou seja, se um avião viajasse na velocidade da luz ele daria 7,4 voltas em torno da Terra em apenas um segundo. E em um ano a luz percorre cerca de 9,5 TRILHÕES de quilômetros. É um número de 13 dígitos que simplesmente não nos diz nada, apenas que não vale a pena usar medidas comuns como “Km” para definir distâncias astronômicas.
A estrela mais próxima do nosso Sol – Proxima Centauri – fica a 4 anos-luz de nós. Ou seja, sempre vemos essa estrela 4 anos no passado, pois a luz, apesar de ser a coisa mais rápida do Universo, não é instantânea. Para trazermos esse absurdo a nossa escala humana imaginemos que o Sol tenha a distância de um passo da Terra, nesse exemplo Proxima Centauri estaria a 90 km de distância. O problema é que as demais estrelas e corpos celestes ficam ainda mais longe e às vezes tão distantes que percebemos que na verdade a velocidade da luz é muito lenta para a escala ridiculamente colossal do Universo.
Para tornar as coisas um pouco mais interessantes imaginemos a maior estrela conhecida pelo homem, a VY Canis Majoris – distante a 5 mil anos-luz da Terra. Se o nosso Sol fosse do tamanho de uma bola de tênis, a Canis Majoris seria do tamanho de um campo de futebol. Em outras palavras, o Sol, nosso “astro-rei”, está entre as menores estrelas conhecidas. Sorte nossa! Afinal, se o Sol fosse maior e mais poderoso certamente não haveria vida orgânica nesse planeta.
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| Se nós realmente estamos sozinhos no Universo... então é um PUTA desperdício de espaço! |
Ok! Até agora vimos uma escala ascendente de tamanhos e distâncias cósmicas diametralmente opostas a tudo que conhecemos e vivenciamos no nosso dia-a-dia. Mas agora imaginemos que as estrelas e seus sistemas planetários são como cidades espalhadas em um grande território. Algumas são pequenas vilas – como o nosso Sistema Solar – outras são grandes metrópoles – como a Canis Majoris. Assim como no nosso mundo as cidades geralmente são separadas por grandes pedaços de “nada”. Só plantações, florestas e montanhas praticamente vazias. Da mesma forma ocorre no espaço. As estrelas são separadas por gigantescos vácuos, verdadeiros desertos de escuridão.
Mas, da mesma forma que no nosso mundo, a união das estrelas, planetas, cometas, buracos negros e demais corpos fazem parte de um conjunto. Um “país” chamado galáxia. Nós estamos na periferia da Via-Láctea – uma galáxia em espiral com pelo menos 200 bilhões de estrelas. De uma ponta a outra nossa galáxia mede cerca de 100.000 mil anos-luz. Em termos mais humanos, vamos supor que se nosso Sol tivesse o tamanho de uma moeda de 25 centavos, a Via-Láctea seria do tamanho dos Estados Unidos.
Agora sim as coisas começam a ficar realmente loucas, afinal, a Via-Láctea é uma galáxia de tamanho medíocre em comparação a diversas outras estruturas galácticas. Nossa galáxia vizinha mais próxima, a M31 (Galáxia de Andrômeda), distante “apenas” 2,9 milhões de anos-luz da Via-Láctea, possui pelo menos o dobro do tamanho da nossa galáxia. Mas isso não é nada comparado ao verdadeiro enxame de galáxias que formam a supergigante Abell 2029 – a maior galáxia já detectada pelo homem. Ela consiste em um aglomerado de milhares de galáxias com um diâmetro de 5,6 milhões de anos-luz, o que equivale a cerca de 60 vezes o tamanho da Via-Láctea.
Existem cerca de 100 bilhões de galáxias no nosso Universo observável, cada uma com uma média de 100 bilhões de estrelas. Resultado: um 10 seguido de 21 zeros de estrelas. Mas tudo indica que só conseguimos observar um recanto tímido do Universo, uma pequena parte para além do qual devem existir outros trilhões de estrelas, galáxias, aglomerados e superaglomerados galácticos.
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| Você está aqui! Em algum lugar... |
Agora pare tudo e experimente voltar abruptamente para o seu quarto e para suas preocupações. Talvez tudo agora lhe pareça estranho e exótico – como se você fosse um estrangeiro em seu próprio mundo, um alienígena. Ou talvez você só tenha se irritado com todo esse papo de astrônomo amador e sentido a frustração de que, por mais que fuja da realidade, os seus problemas “pequenos” e mundanos continuam apitando na sua cabeça e você tem que resolvê-los, nem que seja rolando no travesseiro a noite inteira.
Mas não sou eu quem vai lhe dizer que seus problemas são pequenos e que você se preocupa a toa com a vida. Nem a imensidão do Cosmos tem autoridade para tanto. Tudo é uma questão de escala. Para o Universo os seus problemas talvez não tenham nenhuma importância, mas para você, mero mortal, eles necessitam ser imbuídos de grande valor. Aos grandes, grandes preocupações, aos pequenos, pequenos problemas. É aquele mesmo princípio religioso de que Deus não dá pesos maiores do que seu ombro pode carregar. Ora, as estrelas estão aí para nos lembrarem de nossa pequenez e como convite à humildade, por outro lado conhecer a si mesmo é algo muito mais frutífero para a evolução do ser humano do que contar estrelas.
É... agora eu entendo a comodidade de pegar uma cerveja e sentar o traseiro no sofá para ver o Big Brother ou o futebolzinho de quarta-feira.
O vídeo abaixo é uma simulação viva do texto acima. Confiram!



